Por Angela da Silva Medrado Bezerra
Gerente de Pessoas Sênior e responsável pelo Instituto InterCement
Ao longo da minha trajetória na gestão de pessoas, tenho observado uma transformação importante nas organizações. Cada vez mais, profissionais buscam ambientes de trabalho que ofereçam não apenas oportunidades de crescimento técnico, mas também espaços para gerar impacto positivo na sociedade. Nesse contexto, acredito que o voluntariado empresarial ocupa um papel estratégico, pois conecta propósito, desenvolvimento humano e compromisso social em uma mesma jornada.
Costumamos associar o voluntariado aos benefícios gerados para as comunidades atendidas. E, de fato, eles são significativos. No entanto, uma das maiores riquezas dessa experiência está na transformação que ocorre em quem se voluntaria. Ao sair da rotina habitual e vivenciar realidades diferentes, as pessoas ampliam seu olhar sobre o mundo, fortalecem sua capacidade de empatia e desenvolvem competências essenciais para a vida e para o trabalho.
Essa percepção tem sido reforçada pela experiência do Instituto InterCement, responsável por direcionar o investimento social privado da companhia e estruturar iniciativas voltadas ao fortalecimento das comunidades nos territórios onde a empresa está presente. Desde 2009, a atuação do Instituto tem como foco o desenvolvimento comunitário sustentável e a promoção de soluções construídas em parceria com diferentes atores sociais.
O que considero especialmente relevante nesse modelo é a forma como o voluntariado é tratado. Não se trata de ações isoladas ou pontuais. Existe uma estrutura que incentiva a participação, a escuta das comunidades e o protagonismo das pessoas envolvidas. Essa governança acontece por meio dos CIVICOs, Comitês de Incentivo ao Voluntariado e Interação com a Comunidade; dos GAIVs, Grupos de Ação Ideal Voluntário; e dos CDCs, Comitês de Desenvolvimento Comunitário. Juntos, esses grupos ajudam a identificar demandas locais, organizar iniciativas e mobilizar recursos e pessoas em torno de
objetivos comuns.
Do ponto de vista da gestão de pessoas, esse aspecto é extremamente valioso. Quando profissionais participam da construção de soluções para desafios reais enfrentados por suas comunidades, eles exercitam habilidades que são cada vez mais demandadas nas organizações contemporâneas. Liderança, colaboração, comunicação, escuta ativa, resolução de problemas e capacidade de mobilização deixam de ser conceitos teóricos e passam a ser vivenciados na prática.
Muitas vezes, falamos sobre desenvolvimento de competências a partir de treinamentos, cursos ou experiências formais de aprendizagem. Sem dúvida, essas iniciativas são importantes. Mas acredito que existem aprendizados que somente acontecem quando somos convidados a sair da nossa zona de conforto e a enxergar o mundo por perspectivas diferentes daquelas que vivenciamos diariamente. O voluntariado oferece exatamente essa oportunidade.
Uma reflexão que considero cada vez mais atual: as organizações têm um papel relevante na construção de uma sociedade mais inclusiva, colaborativa e sustentável. Esse compromisso não se materializa apenas por meio de investimentos financeiros ou projetos sociais. Ele ganha força quando as pessoas se tornam parte ativa dessa transformação.
É justamente por isso que iniciativas de voluntariado corporativo produzem resultados que ultrapassam o alcance imediato de uma ação social. Elas fortalecem a cultura organizacional, ampliam o sentimento de pertencimento e criam oportunidades para que profissionais encontrem significado em suas contribuições. Quando alguém percebe que seu trabalho pode gerar valor para além dos limites da empresa, a conexão com o propósito se torna mais genuína.
Um exemplo desse potencial é o Dia do Bem Fazer, principal programa de mobilização voluntária do Instituto InterCement e iniciativa realizada desde 2009. O programa nasce das necessidades identificadas nas próprias comunidades e mobiliza voluntários, lideranças locais, organizações sociais, parceiros, clientes e fornecedores para a construção de soluções coletivas. Em 2026, cerca de dois mil voluntários participaram da iniciativa em diferentes localidades, beneficiando aproximadamente 20 mil pessoas. A mobilização também viabilizou mais de R$ 1,9 milhão em recursos financeiros, materiais e serviços destinados aos projetos apoiados.
Contudo, gosto de pensar que o legado mais importante não pode ser medido apenas pelos números. Ele está presente nas relações construídas, na confiança fortalecida entre empresa e comunidade e, principalmente, nas experiências vividas pelos voluntários. Cada pessoa que participa de uma ação retorna levando consigo novos aprendizados, novas conexões e uma compreensão mais ampla sobre seu papel na sociedade.
Também me chama atenção a capacidade que o voluntariado possui de aproximar pessoas com trajetórias, áreas de atuação e níveis hierárquicos distintos. Durante uma ação voluntária, títulos e cargos perdem protagonismo. O que prevalece é a disposição para colaborar, ouvir e construir conjuntamente. Essa experiência cria vínculos que muitas vezes se refletem posteriormente nos ambientes de trabalho, fortalecendo relações de confiança e cooperação.
Em um cenário marcado por mudanças aceleradas, desafios sociais complexos e crescente demanda por organizações mais responsáveis, acredito que o voluntariado empresarial continuará assumindo um papel cada vez mais relevante. Não apenas como instrumento de impacto social, mas como uma poderosa ferramenta de desenvolvimento humano.
O Instituto InterCement expressa em sua missão a crença de que pessoas e organizações podem atuar como agentes de transformação social, contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. Essa visão encontra eco em algo que aprendi ao longo da minha carreira: quando investimos no desenvolvimento das pessoas, ampliamos a capacidade que elas têm de transformar seu entorno.
Por isso, sempre que reflito sobre o valor do voluntariado, chego à mesma conclusão. As comunidades são beneficiadas pelas ações realizadas, mas o impacto não termina ali. A experiência também transforma quem participa, fortalece organizações e inspira novas formas de construir um futuro melhor.
No final das contas, talvez essa seja a maior contribuição do voluntariado empresarial: mostrar que desenvolvimento e solidariedade não são caminhos paralelos. Quando caminhamos juntos, eles se tornam parte da mesma transformação.